Rasante à Promessa de Horizonte - Parte I
Foi num instante assim, quando meu olhar buscava incessante as respostas que não encontrei; as certezas que jamais terei; a luz que a lua me negou...
Foi nesse instante quieto e surdo, que o horizonte tornou-se tênue, daquela liquidez típica da transformação. O instinto de pássaro que vê obrigava-me a permanecer em vigília... Os anseios da alma que as penas abrigam implorava pela necessidade de tentar... Lutar, mesmo que sem sentido, por tudo aquilo que intimamente eu sonhava.
A batalha entre o instinto e o desejo perdurou dias, exauriu minhas forças, quase me levou a plainar por outro deserto, que não aquele. Porém, ainda que meus olhos de ouro não estivesse voltados para lá, eu sabia que a linha do horizonte já não era como antes. Podia sentir o avançar ininterrupto do tempo, tal qual a correnteza de um rio indomado. Eu poderia permanecer na segurança da areia que já conhecia; ou arriscar por ares outros; talvez pousar longe de tudo, só e enferma; me perder por entre florestas e flores que eu jamais vira. A aridez do presente contra a promessa de exuberância da incerteza.
Dias mais tarde, percebi que a floresta que eu almejava poderia ser apenas mais um deserto e, ao deixar para trás o meu presente, eu mergulhasse em nova aridez.
"Não abdique do que você tem! Pode se arrepender!", gritavam os grãos de areia cada vêz que eu, rasante, sentia sua quentura sob minhas asas. "Você nunca saberá se não tentar...", sussurrava o vento de encontro à minha cabeça, quando eu subia aos céus, o mais alto que podia, para vislumbrar o depois.
E então, numa noite de luar claro e pálido, a alma de pássaro que voa se sobrepôs ao instinto de predador que permanece... Predador da vida, da minha própria vida em eterno ciclo. Abandonei a areia, os troncos em que vivia; deixei para trás tudo o que eu conhecia, para buscar aquela mudança azul e sua promessa de horizonte.
Hariel Noone
))§((